COMUNICADO
POR TRÁS DE UMA DECISÃO DIFÍCIL
Existem decisões que tomamos com a razão, mas que o coração demora muito mais tempo para aceitar. Cancelar um espetáculo é uma delas. Escrevo estas palavras não apenas como um comunicado oficial da OSC, nem apenas como maestro, diretor artístico ou produtor. Escrevo como alguém que há muitos anos escolheu dedicar grande parte da própria vida à música e que, todos os dias, tenta transformar sonhos artísticos em projetos reais, palcos iluminados, partituras, empregos, oportunidades e encontros entre artistas e público. Quem vê um concerto pronto talvez não consiga imaginar tudo aquilo que aconteceu antes de a primeira nota soar. Antes das cortinas se abrirem existem meses de trabalho. Existem arranjos sendo escritos, partituras preparadas, repertórios escolhidos, ensaios organizados, músicos e cantores estudando individualmente, técnicos planejando estruturas, fornecedores sendo contratados, teatros reservados, campanhas sendo criadas, ingressos colocados à venda e compromissos financeiros sendo assumidos. Existem também expectativas. Muitas expectativas. De quem produz, de quem toca, de quem canta, de quem trabalha nos bastidores e, naturalmente, de quem compra seu ingresso esperando viver conosco aquela experiência.
Talvez seja justamente por isso que cancelar um espetáculo seja tão doloroso para mim. Porque não se cancela apenas uma data em uma agenda. Interrompe-se temporariamente uma construção feita por dezenas — às vezes mais de uma centena — de pessoas. Adia-se um encontro. Frustra-se uma expectativa. E quem está à frente precisa olhar para todas essas pessoas e assumir a responsabilidade pela decisão. Essa é uma parte da função de gestor cultural que raramente aparece nas fotografias. É muito mais agradável subir ao palco, reger uma orquestra e receber os aplausos ao final de um concerto. Muito mais difícil é permanecer sozinho diante de planilhas, contratos, compromissos, números de bilheteria e responsabilidades, sabendo que uma decisão precisa ser tomada e que, qualquer que seja ela, haverá pessoas decepcionadas. Nos últimos anos tenho compreendido, talvez mais profundamente do que gostaria, que sonhar artisticamente e administrar profissionalmente esse sonho são duas coisas muito diferentes. A OSC é uma atividade independente, construída por Músicos Associados Independentes. Não existe por trás de cada espetáculo uma estrutura permanente capaz de simplesmente absorver eventuais prejuízos. Não há uma garantia automática de cobertura financeira quando a bilheteria não corresponde aos custos de uma produção. E os custos existem. Os músicos precisam receber. Os cantores precisam receber. Técnicos, produtores, fornecedores e prestadores de serviços precisam receber. Existem famílias por trás desses profissionais. Existem carreiras construídas com anos de estudo e dedicação. Arte também é trabalho. Talvez essa seja uma das mensagens que mais precisamos aprender a comunicar. É maravilhoso quando uma publicação alcança milhares ou milhões de pessoas. É emocionante assistir ao público compartilhando nossos vídeos, marcando amigos, elogiando nossos projetos e dizendo: “Que espetáculo maravilhoso!”, “Curitiba precisa disso!”, “Que orgulho dessa orquestra!”. Tudo isso importa. Muito.
Nossa recente campanha ultrapassou 4 milhões de visualizações, uma dimensão que nos honra e demonstra o interesse despertado pelo trabalho. Mas existe uma realidade que precisamos encarar com maturidade: visualização não paga músico. Curtida não paga teatro. Compartilhamento não paga técnico. Elogio não paga fornecedor. Tudo isso ajuda enormemente a divulgar e construir uma marca artística, mas, no final, para que o espetáculo aconteça, alguém precisa ocupar aquela cadeira na plateia. É o ingresso adquirido que transforma interesse em sustentabilidade. Por isso, quando defendemos a cultura, precisamos compreender que consumir cultura também é uma forma de defendê-la. Comprar um ingresso não significa apenas comprar uma cadeira por algumas horas. Significa remunerar uma cadeia inteira de profissionais. Significa permitir que um músico continue estudando e exercendo sua profissão. Significa ajudar um cantor a construir sua carreira. Significa manter técnicos trabalhando, arranjadores escrevendo, produtores produzindo e novos projetos sendo concebidos. Significa permitir que o próximo concerto exista. Outra dificuldade que acompanha quem se dispõe a construir algo publicamente são os julgamentos. Comentários aparecem. Alguns são legítimos e merecem reflexão. Críticas fazem parte de qualquer atividade pública e muitas vezes nos ajudam a melhorar. Outros, infelizmente, nascem da falta de conhecimento sobre aquilo que acontece nos bastidores. Há também interpretações contaminadas por disputas, preferências pessoais ou divergências ideológicas que pouco ou nada têm a ver com aquilo que estamos tentando construir artisticamente. Aprendi que não é possível responder a tudo. Também não desejo fazê-lo. Prefiro que nosso trabalho responda por nós.
A filosofia cultural que procuro preservar na OSC é muito simples: a música deve aproximar pessoas, não separá-las. Em uma orquestra existem diferenças de pensamento, histórias, gerações, crenças, opiniões e visões de mundo. Entretanto, quando o maestro levanta a batuta, todas essas diferenças precisam encontrar um ponto comum: a música. É esse espaço que desejo continuar defendendo. Não quero uma orquestra que pergunte ao músico em quem ele vota antes de lhe entregar uma partitura. Não quero uma plateia dividida por posicionamentos políticos. Quero pessoas. Quero músicos. Quero artistas. Quero famílias entrando em um teatro e, durante algumas horas, permitindo-se Ver, Ouvir e Sentir. Por isso me entristece quando questões externas ao propósito artístico tentam determinar como nosso trabalho deve ser interpretado. A OSC não foi criada para ser instrumento de confronto ideológico. Foi construída para produzir música, gerar oportunidades, aproximar artistas independentes de estruturas profissionais e oferecer ao público experiências que talvez permaneçam na memória por muitos anos. É claro que existem momentos de cansaço. Existem dias em que a responsabilidade pesa mais do que deveria. Existem telefonemas difíceis, contas que precisam fechar, respostas que precisam ser dadas e decisões que ninguém gostaria de assinar. E existe algo particularmente doloroso para quem produz: perceber que um projeto artisticamente pronto talvez não encontre, naquele momento, as condições econômicas necessárias para chegar ao palco. Nessas horas é inevitável perguntar a si mesmo se vale a pena continuar. Mas então lembro de cada músico entrando no palco. Lembro dos jovens artistas que tiveram uma oportunidade. Lembro das famílias na plateia. Lembro das pessoas que, depois de um concerto, se aproximam emocionadas para dizer que aquela música lhes trouxe alguma lembrança, alguma alegria ou simplesmente algumas horas diferentes em suas vidas.
E encontro novamente a resposta. Vale a pena. Mas valer a pena não significa que possamos agir irresponsavelmente. Persistência não pode ser confundida com imprudência. Às vezes, preservar um projeto exige ter coragem para realizar um grande espetáculo. Em outras, exige uma coragem muito diferente: reconhecer que as condições não são adequadas e interrompê-lo antes que o prejuízo de hoje inviabilize o concerto de amanhã. Cancelar não significa desistir. Significa, algumas vezes, proteger aquilo que ainda queremos realizar. Confesso que decisões como esta me atingem profundamente. Existe uma sensação difícil de explicar quando meses de planejamento precisam ser interrompidos. Como maestro, aprendemos a conduzir uma obra até sua última nota. Talvez por isso seja tão desconfortável aceitar que algumas histórias precisam terminar antes do acorde final. Mas também aprendi que silêncio faz parte da música. E talvez este seja apenas um silêncio entre dois movimentos. A todos que compraram seus ingressos, minha gratidão e meu respeito. A todos que compartilharam, divulgaram e defenderam nosso trabalho, continuem conosco — mas, quando puderem, estejam também conosco dentro do teatro. Precisamos de aplausos, certamente. Mas, antes dos aplausos, precisamos de plateia. A cultura independente sobrevive quando existe público disposto não apenas a admirar o artista, mas a sustentar o direito desse artista de continuar exercendo sua profissão. Aos músicos, cantores, técnicos, produtores, parceiros e profissionais que caminham conosco, minha gratidão talvez seja ainda maior do que consigo expressar neste momento. Sei quanto cada um entrega. Sei quanto cada um acredita. E sei também quanto dói quando precisamos recuar.
A responsabilidade final pelas decisões cabe a quem dirige. E eu a assumo. Assumo os acertos, os erros, os riscos calculados e também a obrigação de dizer “não podemos continuar desta forma” quando acreditar que isso é necessário para proteger o coletivo. Não desejo transformar dificuldades em lamento. Quero transformá-las em aprendizado. Continuarei acreditando que Curitiba pode ter uma grande atividade sinfônica independente. Continuarei acreditando nos músicos que decidiram construir essa história conosco. Continuarei procurando parceiros, empresas, instituições e pessoas que compreendam que apoiar cultura não é fazer caridade ao artista: é investir na identidade cultural de uma cidade e na permanência de seus profissionais. E continuarei acreditando no público. Porque uma orquestra pode ter partituras, instrumentos, músicos, maestro, luz, som e um dos mais importantes palcos do país. Mas existe um elemento que nenhuma produção consegue substituir: a pessoa sentada na plateia. Sem ela, existe música. Com ela, existe espetáculo. Seguiremos. Talvez um pouco mais cansados depois de algumas batalhas. Talvez mais cautelosos. Certamente mais experientes. Mas ainda acreditando que aquilo que começamos merece continuar. Porque enquanto houver músicos dispostos a tocar, profissionais dispostos a construir e pessoas dispostas a ocupar uma cadeira para ouvir, haverá razão para levantar novamente a batuta.
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